XAMPU: Vol. 1 - Roger Cruz

Em meio a tantos títulos de super-heróis nos quais as editoras brasileiras dão a maior prioridade, é prazeroso quando um material – que não seja de um ser dotado de poderes especiais e enfiado num colante – ganha destaque, ainda mais quando é algo nacional e podemos ter uma proximidade maior.



XAMPU é uma dessas obras. Lançada originalmente pela editora Devir em 2010 com o título “Xampu: Lovely Losers”, a HQ retrata uma realidade de um tempo memorável, encapsulado, e que nunca mais veremos de novo: a década de 80/90. Vemos inicialmente um grupo de jovens que vivem em um apartamento onde rola muito cigarro, bebidas, garotas e som, vivenciando a verdadeira essência do famigerado lema sexo, drogas e Rock’n Roll.


No primeiro volume, distribuído em vários momentos, Roger Cruz nos apresenta à época em que – imagino eu – viveu os momentos mais loucos de sua vida. Roger também nos presenteia com um roteiro bem elaborado e uma arte fenomenal, única, e cheia de detalhes nos quadros.

Dentre diversos personagens apresentados, a história em si foca mais em três: Max, Nicole e Augusto (ou Sombra). Interessante é que esses personagens são apresentados naturalmente. Claro que de vez em quando é necessária uma narração “em off” e em um momento Roger faz um capítulo só para conhecermos melhor a personalidade de Sombra. 

Eu diria que um dos mais importantes personagens é justamente o apartamento, onde o álcool, drogas, e o rock mais pesado que você imagina rolam soltos. Por lá também passam diversos jovens que vivem esse estilo, pertencem a essa tribo, e que lá se sentem a vontade. Na HQ fica bem claro que o local era bem conhecido e que lá passava todo tipo de gente simpatizante com o gênero. E é como se visitássemos esse lugar. Muito louco.

Uma das partes mais legais é o capítulo em entitulado "Max e Nicole" (na verdade a separação não é exatamente em capítulos, mas como se fossem títulos mesmo), onde vemos um momento tocante que deixa bem claro a relação entre os dois, e fica claro como Roger imagina toda essa ideia dentro de sua mente, e como ele mostra isso através da sujeira e melancolia misturadas no roteiro e na arte.


Talvez o que mais me atraiu em Xampu foi o fato de querer conhecer o que o Roger queria me mostrar. É como se ele contasse uma história de forma plena, algo como “deixa eu te contar uma história doida e até mesmo engraçada das coisas que aconteciam na minha juventude”. E isso é uma experiência muito legal, especificamente por que nasci no fim dos anos 90 e não cheguei a nem respirar esse período louco. E especificamente porque se passa em lugares da Zona Norte de São Paulo que bem conhecemos - Praça da República, Galeria do Rock, etc.

Ao final da edição publicada pela Panini, somos presenteados com algumas artes que carregam muito bem, de forma emotiva, as mensagens que Roger passa com Xampu. E ao finalizar a leitura de todas as páginas ainda há um posfácio muito lindo, que te deixará com mais vontade ainda de conhecer os próximos volumes – que talvez terão resenhas aqui no blog, quem sabe?



Enfim, Xampu é uma opção excelente de material nacional. Possui uma emoção própria e é diferente de grande parte das HQs que vemos hoje. Se você vivenciou as décadas de 80 e 90, e era um adepto à tribo Rock'n Roll (e se ainda tem isso dentro de você) vai se sentir muito mais que a vontade ao folhear as páginas que Roger Cruz faz com bastante carisma. 
E se você não era, se é um "certinho", e que nem chegou a viver aquela época - assim como eu - vale muito a pena uma visita pra conhecer esse universo bem maluco que não era nada mais e nada menos do que a realidade de muitos jovens do Brasil cerca de 30 anos atrás.


Xampu - Volume 1

formato 17 x 26 cm 

80 páginas

R$ 29,90

O primeiro volume de uma trilogia
escrita e desenhada por Roger Cruz,
vencedor do Troféu HQ Mix

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