Tempos de Paz - Filme


 


Tempos de Paz é mais uma daquelas boas surpresas, mas que muitos deixam passar por puro preconceito imbecil com o material nacional.


O filme é de 2009, dirigido por Daniel Filho e baseado na peça teatral "Novas Diretrizes em Tempos de Paz". A história passa-se em 1945, logo após o final da Segunda Guerra, e retrata uma época bem conturbada em nosso país. Um navio cargueiro chega ao Rio de Janeiro, então capitão do país, com refugiados europeus ainda fugindo dos horrores da guerra. Entre eles está o polonês Clausewitz (Dan Stulbach).

Ao chegarem ao Rio de Janeiro, os refugiados, são encaminhados à Alfândega, onde os funcionários são responsáveis por autorizar quem entra e quem não entra no país. Em muitos casos não há uma regra ou lógica, é simplesmente pelo fato de "não ir com a cara" ou eles desconfiarem de algo.O medo maior era com alguém que poderia ser um espião Nazista.

Como naquele tempo as informações demoravam um pouco para chegar, eles ainda não sabiam bem como proceder. Eles sabiam que a guerra tinha acabado, mas ainda não sabiam o que fazer exatamente e quais procedimentos seguir. Quando chega a vez de Clausewitz, ele começa a falar em português, e ainda declama alguns versos de Carlos Drummond de Andrade. Claro que isso fez levantar suspeitas e ele é levado até Segismundo (Tony Ramos), Interrogador Alfandegário. A desconfiança de Segismundo com Clausewitz é grande, como pode um polonês falar tão bem a nossa língua, conhecer Carlos Drummond de Andrade e não ter algum interesse escuso?

O filme não é uma superprodução, muito pelo contrário, o cenário é praticamente o mesmo por uma boa parte do filme. Algumas cenas logo no começo, quando da chegada do navio, não são tão boas. mas a magia se faz aos poucos. Quando Clausewitz é levado para uma sala onde será interrogado por Segismundo, é onde vemos um show de atuação de ambos atores. Particularmente eu acho Tony Ramos um dos melhores atores nacionais, e gosto muito dos trabalhos do Dan Stulbach, outro ator incrível. E a união desses dois talentos não poderia ter saído algo ruim.

Segismundo, em seu papel de interrogador, quer saber os detalhes da vida de Clausewitz, esse, por sua vez, repete dizendo ser um agricultor vindo da Polônia e que o Brasil precisa de braços para a lavoura. Mas a cada momento Segismundo desconfia mais e Clausewitz acaba caindo em pequenas contradições. As revelações aparecem aos poucos, em doses homeopáticas repletas de sentimentos. É praticamente impossível ficar avesso a qualquer um dos dois personagens. Há outros personagens que interagem pouco e dão mais alguns detalhes dos acontecimentos narrados por Segismundo e uma polonesa que quase faz com que Clausewitz seja deportado.


Parece que eles estão falando com a gente, olhando em nossos olhos. Conseguimos captar toda dúvida de Segismundo com os tempos vindouros e sua raiva e arrependimento por ter sido tão prestativo durante anos e acreditar que tudo foi em vão. E o medo nos olhos de Clausewitz em ter que voltar para ao seu país, um país acabado após o fim da guerra. Como já mencionado, são atuações impecáveis. Realmente dignas de serem vistas e revistas. Algo que dá orgulho da dramaturgia nacional. O ponto alto do filme é uma citação à obra "A Vida é Sonho" do escritor espanhol Pedro Calderón de la Barca. Momento esse que fiquei vidrado, praticamente sem respirar, apenas absorvendo aquele momento.

Posso eu estar exagerando nesse post, quem sabe? Você, que me lê, pode não sentir tudo isso. Há tempos era para eu ter visto esse filme, e resolvi fazê-lo agora. E confesso que me arrependo de não tê-lo feito antes e, também, de não ter visto a obra no teatro. Com certeza, para mim, será um dos melhores filmes que já vi e entrará em minhas recomendações. Recomendação essa, que faço agora. Se possível vá assistir. Caso possua algum preconceito com obras nacionais, deixe-a de lado por cerca de noventa minutos e aproveite, apenas sinta. E ao final, veja e reflita coma mensagem. Para mim, o mundo não deveria ter fronteiras, somos todos um único povo, que aconteceu de aparecer em lugares distintos. Mas desde que o mundo é mundo, os povos vagam pela Terra. Impossível, ao meu ver, dizer que aquele ou esse povo é legítimo. Todos nós somos legítimos. O planeta é nosso. O mundo é nosso. Mas algumas pessoas, julgando-se especiais ou diferentes criaram as fronteiras e nessas fronteiras tem o poder de barrar quem eles bem entender, e na maioria das vezes deixando entrar aqueles que possam fazer o trabalho que eles não querem fazer. E com o passar do tempo, essas mesmas pessoas correm risco de serem expulsas ou até mesmo mortas, por aqueles que acham que não há mais valor nessas pessoas. Assista e me conte. Gostaria muito de saber sua opinião. Caso já tenha assistido, me diga o que achou.


“Ai de mim! Ai pobre de mim! Que pergunto a Deus para entender. Que crime cometi contra Vós? Pois se nasci, entendo já o crime que cometi. Aí está motivo suficiente para Vossa justiça, Vosso rigor. Pois o crime maior do homem, é ter nascido! Para maiores cuidados, só queria saber que crimes cometi contra Vós, além do crime de nascer. Não nasceram outros também? Pois se outros nasceram, que privilégios tiveram que eu jamais gozei? Nasce uma ave, e é embelezada por seus ricos enfeites. Não passa de flor de plumas, ramalhete alado, quando veloz cortando os salões aéreos recusa piedade ao ninho que abandona em paz. E eu, tendo mais instinto, tenho menos liberdade? Nasce uma fera, com uma pele respingada de belas manchas, que lembram estrelas. Logo, atrevida, feroz, a necessidade humana lhe ensina a crueldade! Monstro de seu labirinto! E eu, tendo mais alma, tenho menos liberdade? Nasce um peixe, aborto de ovas e lodo, enfeita um barco de escamas sobre as ondas. Ele gira, gira, por toda a parte, exibindo a imensa liberdade que lhe dá um coração frio! E eu, tendo mais escolha, tenho menos liberdade? Nasce um riacho, serpente prateada, que dentre flores surge de repente, de repente. Entre flores ele se esconde, e como músico celebra a piedade das flores que lhe dão um campo aberto à sua fuga! E eu, tendo mais vida, tenho menos liberdade? Assim, assim, chegando a esta paixão um vulcão, qual Etna, quisera arrancar do peito pedaços do coração! Que lei, justiça ou razão, pode recusar aos homens privilégios tão suaves e sensação tão única! Que Deus deu a um cristão, a um peixe, a uma fera, a uma ave?”
- Monólogo de Segismundo - A Vida é Sonho

Comentários

  1. Muito bom... pena que faz muitos anos que vi... estava na faculdade na disciplina de Brasil. Preciso rever.

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