Nebraska - Dica Netflix



Dentre tantos medos que possuo, um deles é ficar velho. Ou melhor, idoso. Acredito que tenho mais medo disso do que da morte. Não se espante ou não me leve a mal. Mas é que só de pensar em alguém vivendo exclusivamente para mim, tendo que deixar sua vida para me socorrer em horas impróprias me assusta um pouco. no livro Guerra do Velho, quando um idoso chega aos 75 anos (se não me engano) ele se alista em uma força de defesa e deixa o planeta Terra. Seu passado é apagado com ose tivesse morrido. Já vi outras obras que abordam esse assunto, depois de certa idade são levados para um local isolado, como se fosse uma comunidade ou algo assim. É, eu sei que você ai está pensando que eu sou estranho ou algo assim. Ou até mesmo que eu seja egoísta. Mas será que o egoísmo não é privar outros da própria vida para cuidar única e exclusivamente de você? 

Em Nebraska, o idoso Woody Grant (uma atuação magistral de Bruce Dern) recebe uma carta do bom estilo "mala direta", onde diz que ele ganhou Um Milhão de Dólares. Mas claro que esse prêmio só lhe será entregue se o número for sorteado e ele fizer uma quantidade de assinaturas de revistas. Mas Woody não quer saber disso, ele quer saber apenas do prêmio. E acaba, por vezes, sendo encontrado vagando sozinho pelas ruas no sentido de Lincoln, Nebraska; onde ele retirará seu prêmio. O detalhe é que Woody está em Billings, Montana, distante umas 900 milhas (1448km) de Lincoln, Nevada. 


Toda vez que acontece algo com seu pai, sua mãe Kate Grant (June Squibb) liga para seu filho David (Will Forte) e esse vai ao resgate do pai. Woody é aquele tipo de idoso que não espera mais nada da vida, e por conta da idade é teimoso e quer fazer o que ele tiver vontade, não ligando muito para os outros. É um tanto "desligado" do mundo e despreocupado. Kate, sua esposa é aquela idosa que reclama de tudo, principalmente de seu marido, mesmo que ele esteja quieto ou fazendo algo. É um personagem muito comum na vida de muitas famílias. Mas no decorrer do filme ela tem um peculiaridade: se você não gosta dela no começo, vai acabar gostando em alguns pontos e essa ambiguidade é aceita. Não dá para amá-la, mas também não é possível odiá-la. 

Diferente de seu irmão Ross (Bob Odenkirk, nosso Saul Goodman), David não tem uma vida bem sucedida. Trabalha em uma pequena loja e de eletro-eletrônicos, seu relacionamento terminou, mas ele deseja o retorno de sua companheira, em vão. Como o pai, Woody, David parece não esperar muito mais da vida e acaba levando a vida do jeito que está. Em uma das fugas de Woody, David é acionado novamente e tem que sair correndo em busca do pai. Na volta, sua mãe reclama e diz que ele deveria levar o pai até lá para ele ter certeza que não existe prêmio algum. E isso é feito. David resolve levar seu pai até Nebraska para receber seu Um Milhão de Dólares. Durante a viagem Woody se machuca e David decide passar na casa de uns parentes antes de seguir para Lincoln para que seu pai descanse um pouco. Mesmo sob todos os avisos de David, Woody acaba revelando o motivo da viagem. A partir desse momento vemos a verdade do ser humano. A cobiça, a ganância, o pior do ser humano vem à tona, não importando se é amigo, parente ou desconhecido. 



Nebraska é todo em preto e branco e isso ajuda (e muito) no tom do filme. Ele é depressivo, incômodo, e triste em vários momentos. Mas isso não tira a beleza dele, ao contrário, isso é o que ele tem de especial. São situações que qualquer um de nós já passou, passará ou conhece alguém que passou. A emoção alterna entra a raiva, a preocupação, o ódio e a tristeza, esse filme consegue mexer com o íntimo do telespectador. Durante a viagem conhecemos mais sobre o Woody, na mesma medida que seu filho também conhece. O passado vem à tona na medida que eles estão nessa cidade, sentimentos guardados são colocados à mostra, a descoberta da verdade das pessoas. A ignorância e aquele famoso sentimento de descaso quando alguém não é mais útil também aparece. 

O diretor Alexander Payne faz um ótimo trabalho nos colocando no banco do carona nessa viagem entre pai e filho. Somos meros espectadores que sofremos tanto quanto eles, mas em nada podemos ajudar. A fotografia de Phedon Papamichael é bela, são tomadas (algumas longas) de ruas vazias, imensos campos, muitas vezes com apenas uma pessoa presente que nos deixa incomodado por alguns momentos por ser tão vazio. Nebraska é um filme para assistir sozinho ou sem interrupção. Um filme que irá fazer você pensar sobre o sentido de muitas coisas na vida, sobre pessoas, sobre relacionamentos e, principalmente, sobre família. Nebraska foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Fotografia, Melhor Diretor, fora os prêmios em diversos festivais. Não se deixe levar pelo ritmo lento e a falta de cores, tudo isso faz parte do pacote, apenas aproveite.

Nebraska está disponível no Netflix. Vale lembrar que os filmes ficam no catálogo por um tempo determinado. 


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